quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

É ISSO, JOÃO por Sara Menck



 Bom, prometi um texto ao meu filho mais velho no dia do aniversário dele. Confesso que não soube fazê-lo, mas como promessa é dívida, aqui está o que consegui de mim.

 Acredito que ele não ficará surpreso. "Essa é minha mãe", dirá!! Fazer o quê?? Melhor ler...

Então, João, eis o que tenho a dizer hoje: 




É mais um niver... Lembro-me de você criança e quando tomar  um remédio fazia-se necessário, nós avisávamos: “é amargo”, “é ruim mesmo!”.  Outras vezes, quando precisava de algo mais forte, vinha  injeção. “Vai doer, mãe?”. “Sim, isso dói!”.

Gostaria que o meu orientar fosse diferente, mas essa é a verdade: às vezes, precisamos engolir “o bocado seco”, o gole amargo. Faz parte. Que fazer?  É só aprender a crescer. E crescer, muitas vezes, dói também.

Enfim, tornar-se mais velho é algo que exige responsabilidade, atitude, acertos... E, felizmente, isso não é difícil.


Olha só, assim como na vida acadêmica, viver demanda constante pesquisa e defesa de uma tese... 


Em primeiro lugar, para o embasamento teórico, sempre indicamos um autor:  Deus.  E todos os outros que acrescentar, consulte as referências... São coerentes com esse Autor?  Jamais subestime os outros. Cuidado com as falácias... Desenvolva uma aprendizagem para realizar as mudanças... A gente muda muito ao longo da vida!


Dessa forma, poderá “escrever” a sua justificativa com a certeza de que aquilo que foi visto e entendido está claro e fácil de aplicar, mas há as hipóteses... E é preciso testar para se chegar a uma possível conclusão. No fim, não há como afirmar e bater o martelo como tudo acabado... Pesquisa é assim como uma corrida. Vem um, pega o bastão e vai. Depois passa para outro e outro e mais outro...

Claro, será sempre questionado. O bom pesquisador é firme, fiel, constante... 

 Elabore hipóteses, faça comparações, análises...  Verifique sempre os resultados... Estabeleça os objetivos... Faça as escolhas.


Se tiver de voltar e refazer, faça-o também! Refaça outra vez e de novo. Errar é humano e o erro, assim como na pesquisa, é - também - o ponto de partida para melhorar o aprendizado... O melhor é buscar o acerto. Jamais maquie, ou falsifique resultados...


Em todo o seu percurso, o dinheiro é necessário. Isso é bom, faz adquirir bens materiais, mas não se esqueça: honestidade, respeito, dignidade, elegância... não, não estão à venda.


Preocupe-se com o que você foi, é e será. O que você quer de você? Não se esqueça: a preocupação com Status é algo parecido com falta de personalidade. Fazer o que imagina que  o “outro”  acha bonito, ou deseja ver , mata o “eu”. 


Mas cuidado!! Viver é realizar a mais bonita pesquisa... Depois de tudo, verá que - na vida - a sua tese foi defendida dia a dia...


Ser feliz é fácil. Basta ser sincero, amar, respeitar... Enfim, como bom pesquisador, saberá sempre onde encontrar os mais nobres sentimentos e, como consequência, atitudes acertadas. 

Saiba perdoar tantas quantas vezes forem necessário. E, se errar, não tenha medo de pedir perdão. Continue com o seu jeito simples. Não abandone aquilo que o seu avô materno gostava tanto: a sua humildade.


Parabéns, meu jovem. Amamos você (precisava mesmo dizer isso?). Temos visto as suas mudanças e escolhas e estamos felizes. Deus abençoe,meu menino!!!

Ah, obrigada pelo caminho de companheirismo que me ajudou a percorrer, principalmente aqueles tão, tão cheios de pedras. Pra mim, esse é o seu melhor e mais bonito título.

arquivo smms - JPMS



Sua mãe


Sara Maria  em 23 de janeiro de 2014.

domingo, 19 de janeiro de 2014

"NÃO COMPLIQUEM O NOSSO IDIOMA" por Dad Squarisi



                    É interessante a questão da "fusão" e "profusão" da língua, linguagem... Acredito que este texto da Squarisi ilustra bem isso.  Fiz essa leitura há algum tempo, apesar disso, vejo que ainda é bastante atual...


Vamos ao texto??!!


"Na bolsa, só cheque e cartão de crédito. Cadê dinheiro para pagar o estacionamento? Recorri ao personal banking. No drive thru, a primeira máquina estava out of order. Fui à segunda. Nada feito: sistema off line. Liguei para o hot line. Expliquei meu aperto à operadora. "Vamos estar providenciando o conserto do caixa. A senhora pode acessar sua conta em outro terminal. O mais próximo fica no shopping." Fui lá. O sistema estava on line. Embolsei R$ 100 cash.

 O inglês invadiu as instituições bancárias. Antes, timidamente. Restringia-se ao traveller s check, ao Credicard e a aplicações inacessíveis aos comuns dos mortais. Depois, ficou atrevido. Foi deixando o português pra trás. Para chegar lá, trilhou dois caminhos. Um cuidadosamente traçado pelo marketing. Os bancos passaram a oferecer produtos na linguagem do cliente. Ou melhor: na linguagem que impressiona o cliente. Embalar o serviço na língua do Tio Sam valoriza a oferta. Dá-lhe status. Telemarketing, personal manager, phone banking & cia. são filhotes dessa estratégia. 

Deu a mão? A gringa avançou pro braço. Sem convite, foi além das meras palavras. Chegou à estrutura da língua. Fincou pé nos verbos. Exemplos não faltam. Um deles: substituir o futuro "providenciarei" pelo "vamos estar providenciando". Outro: trocar o pretérito "foi desligado" pelo "tem sido desligado". 

De onde vêm os monstrengos? Das traduções malfeitas. O inglês tem muitas formas verbais compostas. É o caso do "I ll be sending". Três verbos para dizer nosso simples "enviarei", traduzido por "vou estar enviando". Há também o past perfect. "The telephone has been desconected" quer dizer, simplesmente, "o telefone foi desligado". Não tem nada a ver com "tem sido desligado", que indica uma ação que começou no passado e continua no presente. Com o avanço da informática e do marketing a coisa piorou. A literatura dessas novidades é praticamente em língua inglesa. Nós consumimos as traduções. 

Invasão de língua estrangeira tem várias razões. Uma é o prestígio. O inglês avançou nas nossas fronteiras porque é falado pela maior potência do planeta, que vende como ninguém sua música, seu cinema, sua televisão, sua literatura, sua tecnologia e o american way of life. Outra é a receptividade. Nós, já dizia Glauber Rocha, temos complexo de vira-lata. O que vem de fora é melhor. 

O inglês deita e rola. O disque virou disk. Do disk-pizza. ao disk-entulho, passando pelo disk-sushi e disk-bombeiro. Liquidação é sale. Moda, fashion. Camiseta, t-shirts. Relatório, paper. Acampar, camping. Revisão médica, check-up. Por que os bancos ficariam pra trás? Fundo se naturalizou fund. Taxa de risco, spread. Loan, empréstimo.

O inglês na vida tupiniquim não é novidade. Vem de longe. Mas se firmou graças a Hollywood, à Segunda Guerra Mundial e ao avanço tecnológico. Ava Garner, Greta Garbo, Clark Gable, Rodolfo Valentino, James Dean, Elvis Presley e cia. deram asas à imaginação deste país colonizado. Bom ser bonito e famoso como eles. Mascar chicletes, tomar Coca-Cola, fumar Camel e usar óculos Rayban viraram obsessão.
A guerra trouxe os gringos até aqui. Vivíamos a política da boa vizinhança com os Estados Unidos. Natal, Recife, São Luís, Belém foram invadidas pelo povo do norte em nome da sagrada aliança contra Hitler, Mussolini e todas as forças do mal encarnadas no Eixo.

Inventaram que aí nasceu a palavra forró. Os gringos promoviam festas para si. Eram privacy. Volta e meia, abriam. Aí era for all, para todos. Nossos caboclos, analfabetos em português e duplamente em inglês, simplificaram a pronúncia. For all virou o nordestíssimo forró. Puro folclore. Forró é redução de forrobodó. Mas a versão tem sido tão insistentemente repetida que virou verdade.

A familiaridade com o inglês deixou-nos ousados. Hoje aportuguesamos termos que nem sonhavam figurar no Aurélio. Muito menos no Vocabulário Ortográfico. A informática serve de exemplo. Com ela, nossa criatividade alça vôos. E ultrapassa os limites da máquina. Deletar tomou a vez do velho apagar. Printar expulsou o imprimir. Startar cassou o começar.

É isso. Quem não aderiu se tornou out. Que corra atrás do prejuízo. Peça help. E vire in"..








quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

SONETO DO AMIGO por Vinicius de Moraes




"Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica..."



Vinicius de Moraes



Los Angeles, 1946.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

MOTIVO por Cecília Meireles

"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.



Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada."
Cecília Meireles


REFERÊNCIA:

MEIRELES, Cecília. Viagem. In: Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1991. p. 228.




RETRATO por Cecílica Meireles


"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

POEMA DE SETE FACES por Carlos Drummond de Andrade




"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo."


Carlos Drummond de Andrade