sábado, 4 de junho de 2011

"Textos e diálogos" por Sara Menck


- Professora?

- Oi, Renan!!!

- O que a senhora vai postar no seu blogger no dia dos namorados?

- Não sei... por quê?

- Ah, estou esperando para ler...

- ahnn!! Que bom... Vou pensar nisso...

- Vai pensar?! A senhora ainda não escreveu o seu texto para o dia dos namorados?

-  Escrever?! Vejo que você é um aluno exigente, heim?! Você quer que EU escreva um texto para o dia dos namorados?

- Ué, e por que não???

- Não sou poeta, Renan, e ainda estou aprendendo a amar...

- Professora, me desculpe, mas agora a senhora está plagiando uma música daquela cantora que já morreu a... Cássia Eller...

- Não, Renan, nem uma coisa nem outra... A Cássia Eller gravou uma música intitulada “Malandragem”.  Uma composição de Cazuza e Frejat... Há um trecho dessa música assim:

"Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança
E não conheço a verdade
Eu sou poeta
E não aprendi a amar
Eu sou poeta
E não aprendi a amar..."

E na realidade, essa música faz uma referência a um texto de um poeta ultrarromântico chamado Alvarez de Azevedo que escreveu um poema intitulado “ Lembrança de morrer” . Nesse poema, encontramos uma estrofe assim:

"Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela
— Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—"

- Ah, professora, entendi...  então, foi o Cazuza que plagiou esse tal de Alvarez de Azevedo??

- Não!!!!! Ninguém plagiou ninguém... pelo menos, não  nesse caso!!! Isso se chama INTERTEXTUALIDADE.  Isto é, quando em um texto fazemos citação de outro texto.  Na verdade, é um diálogo entre textos...  A citação pode ser na íntegra, quando copiamos parte de um texto, mas dizemos quem é o autor; ou quando fazemos, no nosso texto, uma referência proposital de outro texto, ou autor... Isso enriquece o texto... mostra conhecimento textual e leituras... São verdadeiros diálogos textuais...

- Diálogos???   Um texto “conversa”  com outro texto?

- É isso!! A gente percebe o texto citado, mas com novo sentido... Como nos exemplos acima... Por isso, é importante sermos leitores para percebermos os explícitos e os implícitos textuais...

- Ah, tá bom... mas, e plágio?

- Bom, plágio é quando se copia algo de alguém e não faz as devidas citações da fonte e autoria  e ainda usa como se fosse seu...

- Deixa ver se eu entendi... é “roubar” a ideia de alguém!!!

- Exatamente isso, Renan!! Garoto esperto você, heim!!!

- Obrigado, profe!!!  Aqui a gente sempre “ensina” um pouco...

- ????

- .!!!!!

- É isso... Por isso, é importante lermos... Precisamos compreender melhor os diálogos... e até mesmo os diálogos entre os textos... E o próprio diálogo textual interno como neste texto... Certo, my boy?

- Hum hum!!

- Quanto ao dia dos namorados, pretendo sim trazer alguns textos... É só você me seguir...

- ... e o seu texto??

-  ... o meu texto já está aqui...

-  mas... para o dia dos namorados...

- Quem sabe... sempre vale a pena falar de amor!!!   Agora vamos ler Luis de Camôes e Renato Russo . Aqui temos diálogos entre os textos de Camões (poeta Clássico)  e Russo (contemporâneo), mas é importante lembrar que em Renato Russo encontramos um intertexto bíblico também.  


Então, Renan, antes das leituras citadas acima, leia e pense nisto: 



"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse toda a ciência, e ainda que transportasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria [...]."  (I Cor.: 13)



Amor é fogo que arde sem se ver


"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É dor que desatina sem doer;
É um contentamento descontente;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"


Luis Vaz de Camões



Monte Castelo   (Renato Russo)
Composição : Renato Russo

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria

É só o amor, é só o amor.


Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.

"O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.


Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.


É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.


É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.


Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem.
Agora vejo em parte. Mas então veremos face a face.


É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.


Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria."



2 comentários:

  1. Arrasou Sara Maria...adoreiiiii!

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  2. Lizi, na realidade, esse texto é uma aula!! Acredito que ficou bom, porque tem sido bastante lido!! Também gosto muito desse texto... E esse menininho - o Renan - realmente existe. Inspirei nele... Um menino muito esperto!! rsrsrs Bjão, Lizi!!!

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