quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

AMOR VIOLETA por Adélia Prado



"O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida. "


PRADO, Adélia. Bagagem. 32ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2012.  p. 83)


"Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que não aparece estático, espera."
(Do poema "Leitura") - (contra-capa da livro)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

VAIDADE por Florbela Espanca




"Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...E não sou nada!..."


Referência:
ESPANCA, Florbela.  Poemas de Florbela Espanca. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 6.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

POEMA BRASILEIRO por Ferreira Gullar




No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade


No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade


No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade


antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
 
"Poeta consagrado, o maranhense é também ensaísta, tradutor, dramaturgo e crítico de arte"


GULLAR, FERREIRA. Toda poesia. Rio de Janeiro:  José Olímpio, 2000.
 

  

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

"OS SINOS" por Manuel Bandeira


 
 
Sino de Belém,
Sino da Paixão...


Sino de Belém,
Sino da Paixão...


Sino do Bonfim!...
Sino do Bonfim!...


Sino de Belém, pelos que inda vêm!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.


Sino da Paixão, pelos que lá vão!
Sino da Paixão, bate bão-bão-bão.
Sino do Bonfim, por quem chora assim?...


Sino de Belém, que graça ele tem!
Sino de Belém bate bem-bem-bem-bem.


Sino da Paixão - pela minha mãe!
Sino da Paixão - pela minha irmã!


Sino do Bonfim, que vai ser de mim?...


Sino de Belém, como soa bem!
Sino de Belém, bate bem-bem-bem.


Sino da Paixão... Por meu pai?... - Não! Não!...
Sino da Paixão bate bão-bão-bão.


Sino do Bonfim,  baterás por mim?


Sino de Belém,
Sino da Paixão...
Sino da Paixão, pelo meu irmão...


Sino da Paixão,
Sino do Bonfim...
Sino do Bonfim, ai de mim, por mim!


Sino de Belém, que graça ele tem!


 
 
Manuel Bandeira

sábado, 12 de janeiro de 2013

TREM DE FERRO por Manuel Bandeira


Café com pão
Café com pão
Café com pão
 
Virge Maria, que foi isso maquinista?
 
Agora sim  
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
Oô...
 
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô...
 
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
 
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
 
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...
 
Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
 
Manuel Bandeira
 
 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

TIMIDEZ por Cecília Meireles


Basta-me um pequeno gesto, 
feito de longe e de leve, 
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...



— mas só esse eu não farei.




Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...




— palavra que não direi.




Para que tu me adivinhes, 
entre os ventos taciturnos, 
apago meus pensamentos, 
ponho vestidos noturnos, 




— que amargamente inventei.




E, enquanto não me descobres, 
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo, 
até não se sabe quando...




— e um dia me acabarei.

Cecília Meireles
Fonte: Jornal de Poesia

domingo, 30 de dezembro de 2012

RECEITA DE ANO NOVO por Carlos Drummond de Andrade


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)


para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,
Arquivo: smms



você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?

passa telegramas?).


Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.



Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.







É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.