sábado, 6 de fevereiro de 2016

SAUDADE por autor desconhecido

"SAUDADE

na solidão na penumbra do amanhecer.

Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,
nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.


Via você no ontem , no hoje, no amanhã...
Mas não via você no momento.

Que saudade..."
 
arquivo SMMS
Autor desconhecido

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

RESÍDUO por Carlos Drummond de Andrade



De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco


Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).


Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.


Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.


Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.


Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.


Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?


Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.


De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil... 


De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.


E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.


Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo. 

Às vezes um botão. Às vezes um rato. 
     Carlos Drummond de Andrade





                                                                                         

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS por ?????????


Este texto é atribuído a autoria a Mário de Andrade. Parece que há algum engano nas citações e referências. 

Pelas minhas pesquisas, consta que é de Mário Pinto de Andrade. 


Como ainda não encontrei uma referência publicada em livro, deixo aqui o registro daquilo que me pareceu mais verdadeiro, até porque não me soou o estilo de Mário de Andrade, o poeta modernista. 


?????

Vale a leitura!! Quando encontrar, registrarei aqui o resultado da pesquisa.

Ótimo texto!! 

Vale a leitura!!
   




"Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas...
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, 

quero a essência,
minha alma tem pressa…

Sem muitas cerejas na bacia,

quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; 

que sabe rir de seus tropeços, 
não se encanta com triunfos,
 não se considera eleita antes da hora, 
não foge de sua mortalidade.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,


O essencial faz a vida valer a pena.


E para mim, basta o essencial!
"


  
Obs.: Parece que a autoria do texto é atribuída a Ricado Gondim. 



Referência:

https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=4121135503419769637#editor/target=post;postID=9091182162535447630 acesso em 12/10/2015.

Ver também a respeito desse texto em 

https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/3182732  acesso em 31.01.2018.





domingo, 4 de outubro de 2015

O TOM E O RÍTMO DA TIA FILÓ por Sara Menck


Perdi meus pais aos seis meses de idade. Fui adotada por uma tia e cresci em uma casebre de madeira. Éramos duas apenas.
Tia Filó não se casara. "Ninguém me quis", um dia me contou. Não sei por quê. Era linda. Os olhos azuis e doce por demais. Os dedos eram leves e ágeis nas teclas do velho piano: "Minha única herança". Havia outra herança...
Lia muito. Falava-me da vida."Certas coisas doem, mas há outras que superam a dor. A amizade sincera, por exemplo, é algo cheio de tons. Há alegria; companheirismo; respeito; espera; perdão; compreensão..."
O livro era o seu companheiro. Lia as histórias e depois as transformava em uma conversa antes de dormir. Eram fios a emendar. Como sabia emendar fios.
O primeiro dia em que me levou à escola, antes de tudo, fomos à biblioteca. "Sempre haverá um livro aqui à sua espera". Rimos. Aos sete anos, sabia interpretá-la como ninguém.

Quando me levava às aulas, caminhávamos e conversávamos quase no mesmo tom. "Pra tudo há um tom". Segurava forte nas minhas mãos. "Esse é um jeito de te proteger. Quando tiver seus filhos, mostre pra eles sentimentos bons por meio de atos. Nunca esquecerão o seu amor".

Um dia, voltei aborrecida da escola...
Já no portão do colégio, assim que me olhou, franziu a testa.
Nesse dia, passou o braço por cima do meu ombro e me aconchegou a ela. Caminhamos assim: "um, dois"...  "UM, dois, TRÊS, quatro".

 "E UM e dois e TRÊS e quatro". Procurava estabelecer um ritmo e um compasso em cada passo, para dar um tom ao meu silêncio...
Quando chegamos à casa, fez parecer sem muita pretensão: "se quiser e precisar, pode me contar o que houve".
arquivo SMMS/2013
Desde criança, silenciei diante das adversidades da vida. Ela sabia que algo estava errado, mas também aprendera a respeitar o meu jeito. Cresci mais por isso.

 À noite, embalou, no piano, uma cantiga de rodas. Depois, lemos Trem de ferro no tom de um trem. Sorrimos.
Antes de dormir, tive coragem: "Hoje me xingaram de órfã!" . Franziu a testa e só me olhou. Levantou-se e saiu. Voltou com um dicionário e me entregou. Foi a minha vez de franzir a testa. "Não sou abandonada, nem desprotegida, nem desamparada!". Correu os olhos rápidos na definição e soletrou lentamente "que perdeu os pais ou um deles..."
Pela primeira vez, contou-me a respeito do acidente que levara meus pais. O carro era velho. Ele não conseguiu frear. "Foi uma fatalidade, querida. Hoje não quiseram te xingar. Foram infelizes no dizer!".
Ensinou-me que era bom ler para refletir acerca da vida, das pessoas, do mundo. "É difícil entender as pessoas, mas podemos entender nós mesmos para lidar com elas". "Que bom ter você, tia Filó!".
  Um dia, me vi sem ela, senti a dor que se sente quando inundam todas as dores e a sensação de que nunca mais sararia.
"Não cante tristezas, querida! A tristeza modifica o tom do caminho e o ritmo do caminhante..."
Não, não foi apenas uma tia com quem vivi até o iniciar da fase adulta. Foi quem literalmente me abraçou e mostrou um lado da vida. Um jeito melhor de querer ser.
"Precisamos de amigos, querida! Há aqueles de carne e osso, mas há - também - os de folhas e páginas..."
Sara Maria     em   05.05.2015

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

SONETO DO MAIOR AMOR por Vinicius de Moraes



Referência:

MORAES, Vinicius de. O encontro do cotidiano. In: Poesia completa e prosa. Organização de
Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998. p. 310.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

VIDA OBSCURA por Cruz e Souza

"Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
ó ser humilde entre os humildes seres,
embriagado, tonto de prazeres,
o mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
a vida presa a trágicos deveres
e chegaste ao saber de altos saberes
tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
magoado, oculto e aterrador, secreto,
que o coração te apunhalou no mundo,

Mas eu que sempre te segui os passos
sei que cruz infernal prendeu-te os braços
e o teu suspiro como foi profundo! "


Cruz e Souza 




Referência:


SOUSA, Cruz. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1961.