sexta-feira, 14 de março de 2014

MINHA MÃE por Vinicius de Moraes

Hoje -  14 de março é o dia da Poesia  - uma homenagem à Castro Alves, poeta de uma fase romântica que voava mais alto, ou seja, o seu olhar alcançou também as causas sociais daquela época.

Mas hoje vou postar um poema de Vinicius de Moraes, porque, na realidade, quero homenagear a mulher que me ensinou a gostar de poemas: Ruth Gusmão Menck. Ela declamava poemas (agora só quando peço)... E eu sempre amei ouvi-la.

Enfim, um poema de Vinicius de Moraes - pelo DIA NACIONAL DA POESIA e  para lembrar - também -  minha mãe que tantas leituras  me ensina ...

Vamos ao poema??


MINHA MÃE
" Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.

Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.

Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.

Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora.  Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode

Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.

Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.

Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão. que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.

Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique

Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama

Que eu estou com muito medo, minha mãe."

MORAES, VINICIUS DE.  Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar , 1998. pág. 186.

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