sábado, 20 de junho de 2015
quinta-feira, 18 de junho de 2015
VIDA OBSCURA por Cruz e Souza
"Ninguém sentiu o teu
espasmo obscuro,
ó ser humilde entre os humildes seres,
embriagado, tonto de prazeres,
o mundo para ti foi negro e duro.
Atravessaste no silêncio escuro
a vida presa a trágicos deveres
e chegaste ao saber de altos saberes
tornando-te mais simples e mais puro.
Ninguém te viu o sentimento inquieto,
magoado, oculto e aterrador, secreto,
que o coração te apunhalou no mundo,
Mas eu que sempre te segui os passos
sei que cruz infernal prendeu-te os braços
e o teu suspiro como foi profundo! "
Cruz e Souza
Referência:
SOUSA, Cruz. Obra
completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1961.
quinta-feira, 28 de maio de 2015
O TEAR DO TEMPO por autor desconhecido
A vida do homem é urdida no tear do tempo
Em um padrão que ele nem mesmo vê,
Enquanto os tecelões trabalham e as lançadeiras
Voam até a aurora da eternidade.
Em um padrão que ele nem mesmo vê,
Enquanto os tecelões trabalham e as lançadeiras
Voam até a aurora da eternidade.
Algumas lançadeiras sustentam fios de prata
Enquanto em outra deslizam fios de ouro,
Embora muitas vezes os matizes mais escuros
Sejam tudo o que se possa ver.
Enquanto em outra deslizam fios de ouro,
Embora muitas vezes os matizes mais escuros
Sejam tudo o que se possa ver.
Mas os tecelões observam com olho hábil
Cada lançadeira correr de cá para lá,
E veem o padrão surgir tão destramente
No movimento lento e certo do tear.
Cada lançadeira correr de cá para lá,
E veem o padrão surgir tão destramente
No movimento lento e certo do tear.
É Deus decerto quem planeja a trama:
Cada fio, o escuro e o claro,
É escolhido por Sua habilidade mestra
E colocado na urdidura com esmero.
Cada fio, o escuro e o claro,
É escolhido por Sua habilidade mestra
E colocado na urdidura com esmero.
Ele, que só lhes conhece a beleza,
Guia as lançadeiras em que passam
Tanto os fios menos atraentes
Como os de mais puro ouro.
Guia as lançadeiras em que passam
Tanto os fios menos atraentes
Como os de mais puro ouro.
Só quando cada tear houver silenciado
E a lançadeira deixar de deslizar,
Deus irá revelar a trama
E a cada um explicar o porquê
E a lançadeira deixar de deslizar,
Deus irá revelar a trama
E a cada um explicar o porquê
De os fios escuros serem necessários
Na hábil mão do tecelão
Tanto quanto os de ouro e prata
Para a trama que Ele planejou.
Na hábil mão do tecelão
Tanto quanto os de ouro e prata
Para a trama que Ele planejou.
(Retirado do livro "O Resgate do Tigre" escrito por Colleen Houck)
sexta-feira, 15 de maio de 2015
NARIZINHO ARREBITADO por Monteiro Lobato
de Como Narizinho conhece o Príncipe Encantado
Vestido de gente, sim! Trazia casaco vermelho, cartolinha na cabeça e
guarda-chuva na mão — a maior das galantezas!
O peixinho olhava para o nariz de Narizinho com rugas na testa, como quem
não está entendendo nada do que vê.
A menina reteve o fôlego de medo de o assustar, assim ficando até que
sentiu cócegas na testa. Espiou com o rabo dos olhos. Era um besouro que
pousara ali. Mas um besouro também
vestido de gente, trajando sobrecasaca preta, óculos e bengala.
Narizinho imobilizou-se ainda mais, tão interessada estava achando
aquilo.
Ao ver o peixinho, o besouro tirou o chapéu, respeitosamente.
— Muito
boas tardes, senhor príncipe! — disse ele.
— Viva,
mestre Cascudo! — foi a resposta.
— Que
novidade traz Vossa Alteza por aqui, príncipe?
— É que
lasquei duas escamas do filé e o doutor Caramujo me receitou ares do campo. Vim
tomar o remédio neste prado que é muito meu conhecido, mas encontrei cá este
morro que me parece estranho — e o príncipe bateu com a biqueira do
guarda-chuva na ponta do nariz de Narizinho e disse:
— Creio
que é de mármore — observou.
— Muito
mole para ser mármore. Parece antes requeijão.
— Muito
moreno para ser requeijão. Parece antes rapadura — volveu o príncipe.
O besouro provou a tal terra com a ponta da língua.
— Muito
salgada para ser rapadura. Parece antes...
Mas não concluiu, porque o príncipe o havia largado para ir examinar as
sobrancelhas.
— Serão
barbatanas, mestre Cascudo? Venha ver. Por que não leva algumas para os seus
meninos brincarem de chicote?
O besouro gostou da idéia[i]
e veio colher as barbatanas. Cada fio que arrancava era uma dorzinha aguda que
a menina sentia — e bem vontade teve ela de o espantar dali com uma careta! Mas
tudo suportou, curiosa de ver em que daria aquilo.
deixando o besouro às voltas com as barbatanas, o peixinho foi examinar
as ventas.
— Que
belas tocas para uma família de besouros! — exclamou.
— Por que
não se muda para aqui, mestre Cascudo? Sua esposa havia de gostar desta repartição
de cômodos.
O besouro, com o feixe de barbatanas de baixo do braço, lá foi examinar
as tocas. Mediu a altura com a bengala.
—
Realmente, são ótimas — disse ele.
— Só
receio que more aqui dentro alguma fera peluda. E para certificar-se cutucou bem lá no fundo.
— Hu! Hu!
Sai fora, bicho imundo!...
Não saiu fera nenhuma, mas como a bengala
fizesse cócegas no nariz de Lúcia, o que saiu foi um formidável espirro —
Atchim!... e os dois bichinhos, pegados de surpresa, reviraram de pernas para o
ar, caindo um grande tombo no chão.
— Eu não
disse? — exclamou o besouro, levantando-se e escovando com a manga a cartolinha
suja de terra. — É, sim, ninho de fera, e de fera espirradeira! Vou-me embora.
Não quero negócios com essa gente. Até logo, príncipe! Faço votos para que sare
e seja muito feliz.
E lá se foi, zumbindo que nem um avião.
O peixinho, porém, que era muito valente, permaneceu firme e, cada vez
mais intrigado com a tal montanha que espirrava. Por fim a menina teve dó dele
e resolveu esclarecer todo o mistério. Sentou-se de súbito e disse:
— Não sou
montanha nenhuma, peixinho. Sou Lúcia, a menina que todos os dias vem dar
comida a vocês. Não me reconhece?
— Era
impossível reconhecê-la, menina. Vista de dentro d’água parece muito
diferente...
— Posso
parecer, mas garanto que sou a mesma. Esta senhor a aqui é a minha amiga
Emília.
O peixinho saudou respeitosamente a boneca, e em seguida apresentou-se
como o príncipe Escamado, rei do reino das Águas Claras.
—
Príncipe e rei ao mesmo tempo! — exclamou a menina batendo palmas. — Que bom, que
bom, que bom! Sempre tive vontade de conhecer um príncipe-rei.
Conversaram longo tempo, e por fim o príncipe convidou-a para uma visita
ao seu reino.
Narizinho ficou no maior dos assanhamentos.
— Pois
vamos e já — gritou — antes que tia Nastácia me chame.
E lá se foram os dois de braços dados, como velhos amigos. A boneca
seguia atrás sem dizer palavra.
— Parece
que dona Emília está emburrada.
— Não é
burro, não, príncipe. A pobre é muda de nascença. Ando à procura de um bom
doutor que a cure.
— Há um
excelente na corte, o célebre doutor Caramujo. Emprega umas pílulas que curam
todas as doenças, menos a gosma dele. Tenho a certeza de que o doutor Caramujo
põe a senhora Emília a falar pelos cotovelos.
E ainda estavam discutindo os milagres das famosas pílulas quando
chegaram a certa gruta que Narizinho já mais
havia visto naquele ponto. Que coisa estranha! A paisagem estava outra.
— É aqui a
entrada do meu reino — disse o príncipe.
Narizinho espiou, com medo de entrar.
— Muito
escura, príncipe. Emília é uma grande medrosa.
A resposta do peixinho foi tirar do bolso o um vaga-lume de cabo de
arame, que lhe servia de lanterna viva. A gruta clareou até longe e a “boneca”
perdeu o medo.
Entraram. Pelo caminho foram saudados, com grandes marcas de respeito,
por várias corujas e numerosíssimos morcegos.
Minutos depois chegavam ao portão do reino. A menina abriu a boca, admirada.
— Quem
construiu este maravilhoso portão de coral, príncipe? É tão bonito que até parece um sonho.
— Foram
os Pólipos, os pedreiros mais trabalhadores e incansáveis do mar. Também meu
palácio foi construído por eles, todo de
coral rosa e branco.
— Foram
os Pólipos, os pedreiros mais trabalhadores e incansáveis do mar. Também meu palácio
foi construído por eles, todo de coral
rosa e branco.
Narizinho ainda estava de boca aberta quando o príncipe notou que o
portão não fora fechado naquele dia.
— É a
segunda vez que isto acontece — observou o príncipe com cara feia. — Aposto que o guarda está dormindo.
Entrando, verificou que era assim. O guarda dormia um sono roncado. Esse guarda
não passava dum sapão muito feio, que tinha o posto de major no exército
marinho. Major Agarra-e-não-larga-mais.
Recebia como ordenado cem moscas
por dia para que ali ficasse, de lança em punho, capacete na cabeça e a espada
à cinta, sapeando a entrada do palácio.
O Major, porém, tinha o vício de dormir fora de
horas, e pela segunda vez fora apanhado em falta. O príncipe ajeitou-se para
acordá-lo com um pontapé na barriga, mas a menina interveio.
— Não
ainda! Eu tenho uma [ii]idéia
muito boa. Vamos vestir este sapo de
mulher, para ver a cara dele quando acordar.
E sem esperar resposta, foi tirando a saia da Emília e vestindo-a, muito devagarinho, no dorminhoco. Pôs-lhe também a
touca da boneca em lugar do capacete, e o guarda-chuva do príncipe em lugar de
lança.
Depois o deixou assim transformado
numa perfeita velha coroca, disse ao príncipe:
— Pode
chutar agora.
o príncipe, zás!... pregou-lhe um
valente pontapé na barriga.
—
Hum!...— gemeu o sapo, abrindo os olhos, ainda cego de sono.
o príncipe engrossou a voz e
ralhou:
— Bela
coisa. Major! Dormindo como um porco e ainda por cima vestido de velha
coroca... Que significa isto?
o sapo, sem compreender coisa
nenhuma, mirou-se apatetadamente num espelho
que havia por ali. E botou a culpa no pobre espelho.
— É
mentira dele, príncipe! Não acredite. Nunca fui assim...
— Você de
fato nunca foi assim — explicou Narizinho. — Mas, como dormiu escandalosamente
durante o serviço, a fada do sono o virou em velha coroca. Bem feito...
— E por
castigo — ordenou o príncipe — está condenado a engolir cem pedrinhas redondas,
em vez das cem moscas do nosso trato.
o triste sapo derrubou um grande
beiço, indo, muito jururu, encorujar-se a um canto.
Tanta pena do sapo sentiu
Narizinho que, mais tarde, foi bater à porta do quarto do príncipe.
_ Quem é?
- indagou de dentro do peixinho.
_ É
Narizinho. Quero que perdoe ao pobre do
Major Agarra.
_ Perdoar
de quê? - exclamou o príncipe, que tinha a memória fraca.
_ Pois
não o condenou a engolir cem pedrinha redondas?
Já engoliu noventa e nove e está engasgado com a última. Não entra. Não
cabe! Agora, o Major
Agarra-e-não-larga-mais está lá no jardim, de barriga estufada, gemendo e
chorando - explicou a menina.
o príncipe danou.
_ É muito
estúpido o Major! Eu falei aquilo de brincadeira. Diga-lhe que desengula as
pedrinhas e não me incomode.
Narizinho foi, pulando de
contente, dar a boa notícia ao sapo.
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Ilustrações: Moacir Rodrigues
Capa: Moema Cavalcanti
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