sexta-feira, 14 de junho de 2013

E AGORA, JOSÉ? por Carlos Drummond de Andrade



"E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?"

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 12 de junho de 2013

PELA LUZ DOS OLHOS TEUS por Vinicius de Mores





"Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais larirurá

Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar"

Vinicius de Moraes

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Reflexão - leitura :O BOM LADRÃO (Fernando Sabino) por Sara Menck


Ultimamente ando de novo intrigado com o enigma de Capitu. Teria ela traído mesmo o marido ou tudo não passou de imaginação dele, como narrador?


(Fernando Sabino)

O BOM LADRÃO, escrito por Fernando Sabino estabelece desde o primeiro capítulo uma intertextualidade com D. Casmurro (Machado de Assis).  Na realidade, essa intertextualidade já se justifica pelo fato do autor (Fernando Sabino) citar literalmente Capitu já de inicio, conforme citação acima. 



No texto, além do autor, estabelecer esse diálogo com D. Casmurro até o último enunciado -


 “O que me leva de volta ao enigma de Capitu. Vamos a a ele.


 - ele, procura fazer com que o leitor -  da sua novela -  volte-se a algumas reflexões de ordem moral, social, psicológicas e questões patológicas também.

Por exemplo, explora aspectos patológicos e psiquiátricos (a cleptomania da personagem Isabel). Explora aspectos psicológicos, levando o leitor a questionar a respeito até mesmo a questão da influência dos fatores situacionais no comportamento do indivíduo frente aos estímulos sociais. 

 Por meio da leitura do livro, o leitor elabora – também -  reflexões acerca das situações apresentadas , relacionando-os àquilo que realmente existe (ações de roubar ou furtar tidas como uma doença) às ações e reações das personagens, bem como aos seus  conhecimentos e  às verdades impostas pela sociedade. Leva também o leitor a voltar-se aos próprios  valores éticos e morais e questionar as atitudes das personagens.

O enredo parece simples, mas apresenta uma complexidade, pois é não linear, e o tempo (psicológico) é marcado pelas lembranças da personagem e reflexões do narrador. Outro diálogo com o narrador de D. Casmurrro.

Ao final, o narrador apresenta duas visões da mesma situação, no momento em que  - anos mais tarde, após a separação do casal - de dentro de uma joalheria reconhece a esposa, mas a vê em duas condições. Uma marcada pela pobreza; outra pela situação de riqueza.
 
 Qual seria realmente o desejo do marido narrador que tem em mente uma lembrança – até mesmo de uma possível traição – acerca do que ele gostaria de encontrar na mulher com quem vivera.

Após o final da história, fica a dúvida para o leitor. Quem seria realmente o ladrão? As pistas do texto não nos dão conta de justificar uma resposta, ou mesmo condenar ou absolver qualquer um das personagens envolvidos na trama.

Teria sido essa a intenção do autor? Pelo modo com que dialoga com D. Casmurro, parece que sim.

É importante acrescentar que a “Cleptomania caracteriza-se pela recorrência de impulsos para roubar objetos que são desnecessários para o uso pessoal, ou sem valor monetário. Esses impulsos são mais fortes do que a capacidade de controle da pessoa, quando a vontade de roubar não é acompanhada pelo ato de roubar”.

 As atitudes das personagens não estão de acordo com a ordem moral e ética estabelecida pela sociedade. São atitudes que fazem gerar conflitos emocionais e provocam a falta de harmonia entre as pessoas, causando inquietações e desconfianças.

 E para finalizar, podemos explorar alguns aspectos psicológicos, estudando o comportamento das personagens de acordo com as suas manifestações suscitadas pela interação, ações e reações delas. Sejam elas consideradas fora do padrão estabelecido pela sociedade, ou não. 
Além do mais, há a influência dos fatores situacionais no comportamento dessas personagens frente aos estímulos sociais?



Sara Menck em 23/05/2013


Fernando Sabino