sexta-feira, 15 de maio de 2015

NARIZINHO ARREBITADO por Monteiro Lobato



de Como Narizinho conhece o Príncipe Encantado

 


Uma vez, depois de dar comida aos peixinhos, Lúcia sentiu os olhos pesados de sono. Deitou-se na grama com a boneca no braço e ficou seguindo as nuvens que passeavam pelo céu, formando ora castelos, ora camelos. E já ia dormindo, embalada pelo mexerico das águas, quando sentiu cócegas no rosto. Arregalou os olhos: um peixinho vestido de gente estava de pé na ponta do seu nariz.

Vestido de gente, sim! Trazia casaco vermelho, cartolinha na cabeça e guarda-chuva na mão — a maior das galantezas!
O peixinho olhava para o nariz de Narizinho com rugas na testa, como quem não está entendendo nada do que vê.

A menina reteve o fôlego de medo de o assustar, assim ficando até que sentiu cócegas na testa. Espiou com o rabo dos olhos. Era um besouro que pousara ali. Mas  um besouro também vestido de gente, trajando sobrecasaca preta, óculos e bengala.

Narizinho imobilizou-se ainda mais, tão interessada estava achando aquilo.

Ao ver o peixinho, o besouro tirou o chapéu, respeitosamente.

— Muito boas tardes, senhor príncipe! — disse ele.

— Viva, mestre Cascudo! — foi a resposta.

— Que novidade traz Vossa Alteza por aqui, príncipe?

— É que lasquei duas escamas do filé e o doutor Caramujo me receitou ares do campo. Vim tomar o remédio neste prado que é muito meu conhecido, mas encontrei cá este morro que me parece estranho — e o príncipe bateu com a biqueira do guarda-chuva na ponta do nariz de Narizinho e disse:

— Creio que é de mármore — observou.

Os besouros são muito entendidos em questões de terra, pois vivem a cavar buracos. Mesmo assim aquele besourinho de sobrecasaca não foi capaz de adivinhar que qualidade de “terra” era aquela. Abaixou-se, ajeitou os óculos no bico, examinou o nariz de Narizinho e disse:

— Muito mole para ser mármore. Parece antes requeijão.

— Muito moreno para ser requeijão. Parece antes rapadura — volveu o príncipe.

O besouro provou a tal terra com a ponta da língua.

— Muito salgada para ser rapadura. Parece antes...

Mas não concluiu, porque o príncipe o havia largado para ir examinar as sobrancelhas.

— Serão barbatanas, mestre Cascudo? Venha ver. Por que não leva algumas para os seus meninos brincarem de chicote?  

O besouro gostou da idéia[i] e veio colher as barbatanas. Cada fio que arrancava era uma dorzinha aguda que a menina sentia — e bem vontade teve ela de o espantar dali com uma careta! Mas tudo suportou, curiosa de ver em que daria aquilo.

deixando o besouro às voltas com as barbatanas, o peixinho foi examinar as ventas.

— Que belas tocas para uma família de besouros! — exclamou.

— Por que não se muda para aqui, mestre Cascudo? Sua esposa havia de gostar desta repartição de cômodos.
O besouro, com o feixe de barbatanas de baixo do braço, lá foi examinar as tocas. Mediu a altura com a bengala.

— Realmente, são ótimas — disse ele.

— Só receio que more aqui dentro alguma fera peluda.  E para certificar-se cutucou bem lá no fundo.

— Hu! Hu! Sai fora, bicho imundo!...

Não saiu fera nenhuma, mas como a bengala fizesse cócegas no nariz de Lúcia, o que saiu foi um formidável espirro — Atchim!... e os dois bichinhos, pegados de surpresa, reviraram de pernas para o ar, caindo um grande tombo no chão.


— Eu não disse? — exclamou o besouro, levantando-se e escovando com a manga a cartolinha suja de terra. — É, sim, ninho de fera, e de fera espirradeira! Vou-me embora. Não quero negócios com essa gente. Até logo, príncipe! Faço votos para que sare e seja muito feliz.

E lá se foi, zumbindo que nem um avião.
O peixinho, porém, que era muito valente, permaneceu firme e, cada vez mais intrigado com a tal montanha que espirrava. Por fim a menina teve dó dele e resolveu esclarecer todo o mistério. Sentou-se de súbito e disse:

— Não sou montanha nenhuma, peixinho. Sou Lúcia, a menina que todos os dias vem dar comida a vocês. Não me reconhece?

— Era impossível reconhecê-la, menina. Vista de dentro d’água parece muito diferente...

— Posso parecer, mas garanto que sou a mesma. Esta senhor a aqui é a minha amiga Emília.

O peixinho saudou respeitosamente a boneca, e em seguida apresentou-se como o príncipe Escamado, rei do reino das Águas Claras.

— Príncipe e rei ao mesmo tempo! — exclamou a menina batendo palmas. — Que bom, que bom, que bom! Sempre tive vontade de conhecer um príncipe-rei.

Conversaram longo tempo, e por fim o príncipe convidou-a para uma visita ao seu reino.

Narizinho ficou no maior dos assanhamentos.

— Pois vamos e já — gritou — antes que tia Nastácia me chame.

E lá se foram os dois de braços dados, como velhos amigos. A boneca seguia atrás sem dizer palavra.

— Parece que dona Emília está emburrada.

— Não é burro, não, príncipe. A pobre é muda de nascença. Ando à procura de um bom doutor que a cure.

— Há um excelente na corte, o célebre doutor Caramujo. Emprega umas pílulas que curam todas as doenças, menos a gosma dele. Tenho a certeza de que o doutor Caramujo põe a senhora Emília a falar pelos cotovelos.

E ainda estavam discutindo os milagres das famosas pílulas quando chegaram  a certa gruta que Narizinho já mais havia visto naquele ponto. Que coisa estranha! A paisagem estava outra.

— É aqui a entrada do meu reino — disse o príncipe.
Narizinho espiou, com medo de entrar.

— Muito escura, príncipe. Emília é uma grande medrosa.  
A resposta do peixinho foi tirar do bolso o um vaga-lume de cabo de arame, que lhe servia de lanterna viva. A gruta clareou até longe e a “boneca” perdeu o medo.

Entraram. Pelo caminho foram saudados, com grandes marcas de respeito, por várias corujas e numerosíssimos morcegos.
Minutos depois chegavam ao portão do reino. A menina abriu a boca, admirada.

— Quem construiu este maravilhoso portão de coral, príncipe?  É tão bonito que até parece um sonho.

— Foram os Pólipos, os pedreiros mais trabalhadores e incansáveis do mar. Também meu palácio foi construído por  eles, todo de coral rosa e branco.

— Foram os Pólipos, os pedreiros mais trabalhadores e incansáveis do mar. Também meu palácio foi construído por  eles, todo de coral rosa e branco.
Narizinho ainda estava de boca aberta quando o príncipe notou que o portão não fora fechado naquele dia.

— É a segunda vez que isto acontece — observou o príncipe com cara feia. —  Aposto que o guarda está dormindo.  
Entrando, verificou que era assim. O guarda dormia um sono roncado. Esse guarda não passava dum sapão muito feio, que tinha o posto de major no exército marinho. Major Agarra-e-não-larga-mais.
Recebia como ordenado cem moscas por dia para que ali ficasse, de lança em punho, capacete na cabeça e a espada à cinta, sapeando a entrada do palácio.
 O Major, porém, tinha o vício de dormir fora de horas, e pela segunda vez fora apanhado em falta. O príncipe ajeitou-se para acordá-lo com um pontapé na barriga, mas a menina interveio.

— Não ainda! Eu tenho uma [ii]idéia  muito boa. Vamos vestir este sapo de mulher, para ver a cara dele quando acordar.
E sem esperar resposta, foi tirando a saia da Emília e vestindo-a, muito  devagarinho, no dorminhoco. Pôs-lhe também a touca da boneca em lugar do capacete, e o guarda-chuva do príncipe em lugar de lança.
Depois o deixou assim transformado numa perfeita velha coroca, disse ao príncipe:

— Pode chutar agora.


o príncipe, zás!... pregou-lhe um valente pontapé na barriga.

— Hum!...— gemeu o sapo, abrindo os olhos, ainda cego de sono.
o príncipe engrossou a voz e ralhou:
— Bela coisa. Major! Dormindo como um porco e ainda por cima vestido de velha coroca... Que significa isto?
o sapo, sem compreender coisa nenhuma, mirou-se apatetadamente num  espelho que havia por ali. E botou a culpa no pobre espelho.

— É mentira dele, príncipe! Não acredite. Nunca fui assim...

— Você de fato nunca foi assim — explicou Narizinho. — Mas, como dormiu escandalosamente durante o serviço, a fada do sono o virou em velha coroca. Bem feito...

— E por castigo — ordenou o príncipe — está condenado a engolir cem pedrinhas redondas, em vez das cem moscas do nosso trato.
o triste sapo derrubou um grande beiço, indo, muito jururu, encorujar-se a um canto.
Tanta pena do sapo sentiu Narizinho que, mais tarde, foi bater à porta do quarto do príncipe.

_ Quem é? - indagou de dentro do peixinho.

_ É Narizinho. Quero que  perdoe ao pobre do Major Agarra.

_ Perdoar de quê? - exclamou o príncipe, que tinha a memória fraca.

_ Pois não o condenou a engolir cem pedrinha redondas?  Já engoliu noventa e nove e está engasgado com a última. Não entra. Não cabe!  Agora, o Major Agarra-e-não-larga-mais está lá no jardim, de barriga estufada, gemendo e chorando - explicou a menina.

o príncipe danou.
_ É muito estúpido o Major! Eu falei aquilo de brincadeira. Diga-lhe que desengula as pedrinhas e não me incomode.

Narizinho foi, pulando de contente, dar a boa notícia ao sapo.

Monteiro Lobato





Ilustrações: Moacir Rodrigues
 Capa: Moema Cavalcanti



[i] ideia - Acordo Ortográfico janeiro de 2009. Língua Portuguesa - Reforma Ortográfica .
[ii] idem


Referência:

LOBATO, Monteiro.  Fragmento do Reinações de Narizinho. 3ª ed. São Paulo: Brasiliense.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

RECORDO AINDA por Mário Quintana

Referência:

QUINTANA, Mario.  Recordo ainda. In: A rua dos cataventos.  2ª. ed. São Paulo: Globo, 2005. p. 26

sábado, 9 de maio de 2015

MÃE... por Sara Menck

Ser mãe é algo além do doar... dar... 

E vale cada receber
Ainda que pouco...

Ainda que quase nada...
E só compreendemos isso quando nos tornamos mãe... 

E não há como cobrar...
E não há como pagar...  
 



No tempo da espera, chora-se muito...




No tempo do cuidar, há o que dói mais na mãe do que no filho...



No tempo do aconselhar, a mãe sabe o que é melhor...

 Não há como acertar sempre...
Cada filho tem a sua particularidade e a sua identidade... 

E todos têm o direito de errar e acertar...
O problema é da mãe que quer por demais zelar...


 E..

No tempo do doar, é um pedaço inteiro que se vai.. 

Arrancado!
 E sangra.




No tempo do envelhecer,
 poucos são capazes de compreender...



No tempo da velhice, nem todos abraçam e caminham juntos...



No tempo do partir...
Esse tempo é apenas o de ir

E deixar um nome na identidade do filho.



Apenas assim?

Ah, algumas vezes, valerá sentir saudade...
E muitas são e serão  as vezes que esse mesmo sentimento é por demais doído...

Por isso mesmo,

Nada mais do que por isso,
 é bom demais! 

Por ser assim... 

Apenas intenso...
E fazer valer uma vida 
                                         Inteira!



                                                                                                     Sara Maria  em 18 de agosto de 2014

sábado, 14 de março de 2015

PROCURA DA POESIA por Carlos Drummond de Andrade



14 de março é o DIA NACIONAL DA POESIA, por isso, e nada mais do que por isso, hoje postamos mais um poema de Drummond.

Mas este poema serve para homenagear todos os poetas de todos os tempos.

Vamos ao poema?

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?



terça-feira, 10 de março de 2015

A FLOR E A NÁUSEA por Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas,vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o *enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
"Já se faz  primavera "/ Holanda /03/2012 - By Dayana Menck
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.





ANDRADE, Carlos Drummond de.  A flor e a náusea. In: Reunião. 10ª ed. Rio de Janeiro, 1980.p.78-79

*nova ortografia: enjoo

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

NÓS por Helena Kolody

"Nós

 

Fomos duas árvores castas.
Não misturamos as raízes.
Apenas enlaçamos
os ramos
e sonhamos juntos.

Helena Kolody
ARQUIVO: SMMS

sábado, 24 de janeiro de 2015

PEQUENA CAIXA DE JOIAS por Sara Menck





alguns anos, por ocasião do meu aniversário, ganhei um presente de duas alunas: uma caixinha média e um pequeno colar dentro. Elas se desculparam pelo tamanho da caixa, mas amei tudo, caixinha e colar. 
Foto: SMMS

E elas esperaram eu usar. Poucos dias depois, cobraram de mim. Na verdade, não me lembro da resposta e nem do porquê não ter exibido o colar no dia seguinte.  Hoje vejo que foi uma indelicadeza distraída, porque amara aquele mimo.

  Eram adolescentes e a jovem professora com vontade de acertar nas ações pedagógicas, mas, por certo, errava bastante. Um dos erros era não perceber que revelava certas preferências a alguns alunos, apesar de que isso era algo que eles próprios provocavam. Alguns demonstravam carinho e eu me sentia amada. Claro, que era bom; mas outros não faziam o mesmo.  E na turma havia certa disputa e geravam, inclusive, ciúmes. E segui preocupada com o conteúdo, lógico que amava aquela turma, mas “segurava” esse sentimento. E seguia o planejamento didático da melhor forma possível. A turma era excelente e se tivesse sabido trabalhar melhor aquela consciência íntima e conteúdos didáticos, teria sido sucesso total.

Mas a vida não é assim. As coisas não acontecem cem por cento. Se assim fosse, já estaríamos no paraíso. Temos verdadeiras caixinhas de joias em nossas mãos e não sabemos perceber  beleza e  brilho que podem nos encher de felicidade. 

Foto: SMMS
Hoje, quase 20 anos depois, ainda guardo os dois presentes. Dentro da caixinha, agora cabe um pequeno espelho, além de muitas lembranças, saudades, angústias, medos, amizades, esperanças...


Interessante é olhar para o espelho e ver e analisar ações, palavras e pensamentos que estão contidos na história de vida. Vejo que durante os anos de magistério, aprendi mais do que ensinei. Ao longo da vida, tantas vezes quis acertar e foram tantos os erros.  Há, na minha caixinha, lembranças boas e queridas e reflexões acerca de tantos sentimentos e de uma história que, se pudesse, usaria – também - uma borracha.

Mas há, acima de tudo, esse aprendizado lento e longo. Na caixinha coube tanta sensibilidade que nem é possível descrever aqui. O espelho faz refletir e leva à reflexão. 



Foto: SMMS
E a caixinha se encheu de segredos e mistérios da vida. Quantas vezes, eu quis melhorar tantas coisas! Dar o 10,0 – tão merecido - para tantos estudantes que pelas minhas mãos passaram. Abraçar tantos que o meu coração se encantou.  Não demonstrar maior afeição por uns e deixar outros com os olhos e o coração pedindo um pouco do carinho. Olhar para todos e ver apenas a imensidão de coisas boas que há em cada coração. Esquecer sempre a ofensa, o mau e o mal-entendido. Deixar o eu exercitar o nós. O outro merece sempre mais que o eu. Amar cada um, respeitando as diferenças. Tolerar as imprudências. Jamais ser hipócrita. Nunca lançar a palavra de forma indireta para constranger o outro.  Ser sincero sempre e tirar do invólucro o silêncio como a melhor forma de diálogo...

Ah,espelho, espelho meu, agora reflete como Kolody: “Quem é essa / que me olha / de tão longe, /com olhos que foram meus?”, ou,  então finaliza o canto de Meireles,  Eu não dei por esta mudança, / tão simples, tão certa, tão fácil: / Em que espelho ficou perdida a minha face?"

Ah, caixa, caixinha, quanto cabe dentro de ti e, quantas vezes, fala como Pessoa: “"Temos, todos que vivemos / uma vida que é vivida, / E outra que é pensada / E a única vida que temos / É essa que é dividida/ Entre a verdadeira e a errada" . Já, outras vezes, é bem Rosa: "O correr da vida embrulha tudo./ A vida é assim: esquenta e esfria, / aperta e daí afrouxa, / sossega e depois desinquieta./ O que ela quer da gente é coragem."...
 

Foto: SMMS


Sara Maria