quinta-feira, 23 de maio de 2013

Reflexão - leitura :O BOM LADRÃO (Fernando Sabino) por Sara Menck


Ultimamente ando de novo intrigado com o enigma de Capitu. Teria ela traído mesmo o marido ou tudo não passou de imaginação dele, como narrador?


(Fernando Sabino)

O BOM LADRÃO, escrito por Fernando Sabino estabelece desde o primeiro capítulo uma intertextualidade com D. Casmurro (Machado de Assis).  Na realidade, essa intertextualidade já se justifica pelo fato do autor (Fernando Sabino) citar literalmente Capitu já de inicio, conforme citação acima. 



No texto, além do autor, estabelecer esse diálogo com D. Casmurro até o último enunciado -


 “O que me leva de volta ao enigma de Capitu. Vamos a a ele.


 - ele, procura fazer com que o leitor -  da sua novela -  volte-se a algumas reflexões de ordem moral, social, psicológicas e questões patológicas também.

Por exemplo, explora aspectos patológicos e psiquiátricos (a cleptomania da personagem Isabel). Explora aspectos psicológicos, levando o leitor a questionar a respeito até mesmo a questão da influência dos fatores situacionais no comportamento do indivíduo frente aos estímulos sociais. 

 Por meio da leitura do livro, o leitor elabora – também -  reflexões acerca das situações apresentadas , relacionando-os àquilo que realmente existe (ações de roubar ou furtar tidas como uma doença) às ações e reações das personagens, bem como aos seus  conhecimentos e  às verdades impostas pela sociedade. Leva também o leitor a voltar-se aos próprios  valores éticos e morais e questionar as atitudes das personagens.

O enredo parece simples, mas apresenta uma complexidade, pois é não linear, e o tempo (psicológico) é marcado pelas lembranças da personagem e reflexões do narrador. Outro diálogo com o narrador de D. Casmurrro.

Ao final, o narrador apresenta duas visões da mesma situação, no momento em que  - anos mais tarde, após a separação do casal - de dentro de uma joalheria reconhece a esposa, mas a vê em duas condições. Uma marcada pela pobreza; outra pela situação de riqueza.
 
 Qual seria realmente o desejo do marido narrador que tem em mente uma lembrança – até mesmo de uma possível traição – acerca do que ele gostaria de encontrar na mulher com quem vivera.

Após o final da história, fica a dúvida para o leitor. Quem seria realmente o ladrão? As pistas do texto não nos dão conta de justificar uma resposta, ou mesmo condenar ou absolver qualquer um das personagens envolvidos na trama.

Teria sido essa a intenção do autor? Pelo modo com que dialoga com D. Casmurro, parece que sim.

É importante acrescentar que a “Cleptomania caracteriza-se pela recorrência de impulsos para roubar objetos que são desnecessários para o uso pessoal, ou sem valor monetário. Esses impulsos são mais fortes do que a capacidade de controle da pessoa, quando a vontade de roubar não é acompanhada pelo ato de roubar”.

 As atitudes das personagens não estão de acordo com a ordem moral e ética estabelecida pela sociedade. São atitudes que fazem gerar conflitos emocionais e provocam a falta de harmonia entre as pessoas, causando inquietações e desconfianças.

 E para finalizar, podemos explorar alguns aspectos psicológicos, estudando o comportamento das personagens de acordo com as suas manifestações suscitadas pela interação, ações e reações delas. Sejam elas consideradas fora do padrão estabelecido pela sociedade, ou não. 
Além do mais, há a influência dos fatores situacionais no comportamento dessas personagens frente aos estímulos sociais?



Sara Menck em 23/05/2013


Fernando Sabino  



quarta-feira, 22 de maio de 2013

LEMBRANÇA DE MORRER por Álvares de Azevedo

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro,
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai… de meus únicos amigos,
Pouco - bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo…
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos…
Deixai a lua pratear-me a lousa!


Álvares de Azevedo

domingo, 5 de maio de 2013

"LÍNGUA" por Caetano Veloso


"Hojé é o dia da Língua Portuguesa e da Cultura entre os países de Língua Portuguesa. Nesta data, países do espaço lusófono devem desenvolver atividades que promovam a língua  e a cultura lusófona pelo mundo.

 Este dia  é conhecido como Dia da Cultura Lusófona!"

Por isso, fica aqui um poema de Caetano que vale a pena ler. 

Vamos a ele??


"Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões


Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?


E deixe os Portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?


Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate - explique-nos Luanda


Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem


Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã


Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé


Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
"


Caetano Veloso 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O 'IDION' E O 'IDIOTES' por Leandro Konder



Filosofar é preciso!!

 Vamos ler um texto de Leandro Konder e façamos uma reflexão acerca da individualidade e da alteridade na constituição do ser...

Vamos ao texto??



Quando duas pessoas querem dialogar, duas condições prévias são imprescindíveis: 1) que elas sejam indivíduos diferentes, e 2) que elas tenham alguma coisa em comum.
Se não houver nenhuma diferença significativa, se as duas disserem exatamente a mesma coisa, cada uma delas repetindo o que a outra acabou de dizer, teremos não um diálogo, mas um monólogo a duas vozes. Por outro lado, se os dois parceiros do diálogo forem tão completamente diferentes que não tenham sequer um ponto de encontro e nem mesmo consigam falar a mesma língua, o diálogo se torna inviável.

O indivíduo é o ser singular, tem uma identidade que o distingue de todos os outros, uma personalidade própria (é o que os antigos gregos chamavam de ídion). No entanto, esse ídion existe em constante intercâmbio com os outros, é formado pela sociedade, depende do grupo. Leva um tempão para aprender a andar, a falar, e muito mais tempo ainda para aprender a lutar pela vida, a sobreviver por conta própria. Existe , portanto, em comunidade (o que os antigos gregos chamavam de koinonia). 

Nas atuais condições históricas, a importância da autonomia individual é sublinhada pela onda de individualismo que se nota na cultura dita “pós-moderna”. Com boas razões, as pessoas  repelem a pressão que as tenta anexar a coletividades estruturadas de forma sufocante.

Querendo ou não, pertencemos todos a uma vasta comunidade: o gênero humano. Mas a humanidade é grande demais, não conseguimos enxergá-la. Recorremos, então, a comunidades menores, que substituem a espécie humana. Uns se integram (ou entregam?) em partidos políticos, outros a seitas religiosas, muitos se contentam a pertencer a um clube de futebol ou a uma escola de samba, alguns se definem como sócios de um clube ou membros de uma corporação profissional. Isso pode ser bom ou pode ser ruim, dependendo do espírito com o que o sujeito vive sua pertinência à “pequena comunidade”: com espaço para a tolerância, o diálogo e o humor.

Mas há gente que se recusa a participar de qualquer koinonia e insiste em ser apenas um indivíduo isolado. O preço pago por essa opção individualista drástica costuma ser alto. O sujeito posto em estado de solidão pode pensar que está desenvolvendo uma reflexão original, profunda, enriquecedora, no entanto pode estar somente emburrecendo, por falta de interlocutores. Vale a pena lembrarmos que os antigos gregos já alertavam para esse risco: no idioma deles, o superlativo de ídion (singular) era idiotes.

O individuo singular é formado socialmente, ele se individualiza na relação com os outros. Sua singularidade (originalidade?) se desenvolve com base naincorporação crítica das experiências alheias, num movimento incessante de ir ao outro para crescer. O idiotes é o sujeito que instalado em si mesmo, se sente dispensado de qualquer esforço de auto-superação. A rigor, se trata de alguém que não supor ta o diálogo com o outro, já que o outro, o interlocutor que pensa diferente, lhe parecerá sempre o agente de um desacato, a encarnação de um desaforo, um delinqüente, que merece sofrer medidas policiais.

Dispor-se ao diálogo, tentar falar para o outro, já é uma opção promissora, que pode ter preciosas implicações humanistas e democráticas. Para prosseguir no caminho dialógico, o sujeito precisa aprimorar sua capacidade de argumentar ad hominem, quer dizer, sua capacidade de falar de modo razoável, em termos que o seu interlocutor – com base no que já sabe – possa entender.

Debruça-se autocriticamente sobre si mesmo, o sujeito que se dispõe a trilhar o  caminho do diálogo precisa tentar reexaminar sua inserção em grupos, coletividades, comunidades  que eventualmente lhe servem como substitutas da espécie humana (dentro de certos limites,  é claro). 

Precisa verificar, no diálogo, se tem sido e continua a ser um bom companheiro de partido, um correligionário maduro e consciencioso, um parceiro leal e correto, um colega bem-educado e cordial, ou se às vezes tropeça em atitudes intolerantes e fanáticas, em azedumes ou mesquinharias, cultivando mal-entendidos em vez de contribuir para proporcionar esclarecimentos.

Precisa, também, de tempos em tempos, observar criticamente a coletividade em que está inserido, para ver se ela está proporcionando aos seus integrantes possibilidades concretas de elas combinarem suas respectivas singularidades com os meios concretos de uma inserção mais efetiva – mais universal! – no movimento social.

Essa inserção é fundamental. Depois de ter sido formado pela sociedade, o indivíduo passa a se orientar livremente, a fazer escolhas pelas quais é responsável, e é desafiado a participar ativamente da transformação da sociedade que o formou. As associações que até certo ponto funcionam como substitutas do gênero humano devem oferecer a seus membros possibilidades concretas de pensarem e agirem seu estreitezas ideológicas, na condição de cidadãos do mundo, de representantes da humanidade.


Se não fazem isso, essas associações podem atrapalhar a formação de uma consciência humanista e democrática. Se, contudo, se abrem para o convívio jovial com a ampla diversidade da condição humana, elas ajudam muito a fortalecer o espírito da democracia.  E mantêm vivo o espírito do humanismo.”

Fonte: 
 KONDER, Leandro. O 'idion' e o 'idiotes'. In:  FARACO, Carlos Alberto. Português: língua e cultura, ensino médio,  3ª série. Curitiba: Base Editora, 2005. p. 28-30.



 


Fonte da foto:
http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=404&Artigo_ID=6178&IDCategoria=7135&reftype=2


  Sugestão de leitura:

Sobre o Amor - Leandro Konder -
Editora: BOITEMPO