quinta-feira, 4 de abril de 2013

O 'IDION' E O 'IDIOTES' por Leandro Konder



Filosofar é preciso!!

 Vamos ler um texto de Leandro Konder e façamos uma reflexão acerca da individualidade e da alteridade na constituição do ser...

Vamos ao texto??



Quando duas pessoas querem dialogar, duas condições prévias são imprescindíveis: 1) que elas sejam indivíduos diferentes, e 2) que elas tenham alguma coisa em comum.
Se não houver nenhuma diferença significativa, se as duas disserem exatamente a mesma coisa, cada uma delas repetindo o que a outra acabou de dizer, teremos não um diálogo, mas um monólogo a duas vozes. Por outro lado, se os dois parceiros do diálogo forem tão completamente diferentes que não tenham sequer um ponto de encontro e nem mesmo consigam falar a mesma língua, o diálogo se torna inviável.

O indivíduo é o ser singular, tem uma identidade que o distingue de todos os outros, uma personalidade própria (é o que os antigos gregos chamavam de ídion). No entanto, esse ídion existe em constante intercâmbio com os outros, é formado pela sociedade, depende do grupo. Leva um tempão para aprender a andar, a falar, e muito mais tempo ainda para aprender a lutar pela vida, a sobreviver por conta própria. Existe , portanto, em comunidade (o que os antigos gregos chamavam de koinonia). 

Nas atuais condições históricas, a importância da autonomia individual é sublinhada pela onda de individualismo que se nota na cultura dita “pós-moderna”. Com boas razões, as pessoas  repelem a pressão que as tenta anexar a coletividades estruturadas de forma sufocante.

Querendo ou não, pertencemos todos a uma vasta comunidade: o gênero humano. Mas a humanidade é grande demais, não conseguimos enxergá-la. Recorremos, então, a comunidades menores, que substituem a espécie humana. Uns se integram (ou entregam?) em partidos políticos, outros a seitas religiosas, muitos se contentam a pertencer a um clube de futebol ou a uma escola de samba, alguns se definem como sócios de um clube ou membros de uma corporação profissional. Isso pode ser bom ou pode ser ruim, dependendo do espírito com o que o sujeito vive sua pertinência à “pequena comunidade”: com espaço para a tolerância, o diálogo e o humor.

Mas há gente que se recusa a participar de qualquer koinonia e insiste em ser apenas um indivíduo isolado. O preço pago por essa opção individualista drástica costuma ser alto. O sujeito posto em estado de solidão pode pensar que está desenvolvendo uma reflexão original, profunda, enriquecedora, no entanto pode estar somente emburrecendo, por falta de interlocutores. Vale a pena lembrarmos que os antigos gregos já alertavam para esse risco: no idioma deles, o superlativo de ídion (singular) era idiotes.

O individuo singular é formado socialmente, ele se individualiza na relação com os outros. Sua singularidade (originalidade?) se desenvolve com base naincorporação crítica das experiências alheias, num movimento incessante de ir ao outro para crescer. O idiotes é o sujeito que instalado em si mesmo, se sente dispensado de qualquer esforço de auto-superação. A rigor, se trata de alguém que não supor ta o diálogo com o outro, já que o outro, o interlocutor que pensa diferente, lhe parecerá sempre o agente de um desacato, a encarnação de um desaforo, um delinqüente, que merece sofrer medidas policiais.

Dispor-se ao diálogo, tentar falar para o outro, já é uma opção promissora, que pode ter preciosas implicações humanistas e democráticas. Para prosseguir no caminho dialógico, o sujeito precisa aprimorar sua capacidade de argumentar ad hominem, quer dizer, sua capacidade de falar de modo razoável, em termos que o seu interlocutor – com base no que já sabe – possa entender.

Debruça-se autocriticamente sobre si mesmo, o sujeito que se dispõe a trilhar o  caminho do diálogo precisa tentar reexaminar sua inserção em grupos, coletividades, comunidades  que eventualmente lhe servem como substitutas da espécie humana (dentro de certos limites,  é claro). 

Precisa verificar, no diálogo, se tem sido e continua a ser um bom companheiro de partido, um correligionário maduro e consciencioso, um parceiro leal e correto, um colega bem-educado e cordial, ou se às vezes tropeça em atitudes intolerantes e fanáticas, em azedumes ou mesquinharias, cultivando mal-entendidos em vez de contribuir para proporcionar esclarecimentos.

Precisa, também, de tempos em tempos, observar criticamente a coletividade em que está inserido, para ver se ela está proporcionando aos seus integrantes possibilidades concretas de elas combinarem suas respectivas singularidades com os meios concretos de uma inserção mais efetiva – mais universal! – no movimento social.

Essa inserção é fundamental. Depois de ter sido formado pela sociedade, o indivíduo passa a se orientar livremente, a fazer escolhas pelas quais é responsável, e é desafiado a participar ativamente da transformação da sociedade que o formou. As associações que até certo ponto funcionam como substitutas do gênero humano devem oferecer a seus membros possibilidades concretas de pensarem e agirem seu estreitezas ideológicas, na condição de cidadãos do mundo, de representantes da humanidade.


Se não fazem isso, essas associações podem atrapalhar a formação de uma consciência humanista e democrática. Se, contudo, se abrem para o convívio jovial com a ampla diversidade da condição humana, elas ajudam muito a fortalecer o espírito da democracia.  E mantêm vivo o espírito do humanismo.”

Fonte: 
 KONDER, Leandro. O 'idion' e o 'idiotes'. In:  FARACO, Carlos Alberto. Português: língua e cultura, ensino médio,  3ª série. Curitiba: Base Editora, 2005. p. 28-30.



 


Fonte da foto:
http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=404&Artigo_ID=6178&IDCategoria=7135&reftype=2


  Sugestão de leitura:

Sobre o Amor - Leandro Konder -
Editora: BOITEMPO

 
 

quinta-feira, 28 de março de 2013

O LAÇO DE FITA por Castro Alves



Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
                           Num laço de fita.


Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
                           O laço de fita.


Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso,
Rolar prisioneiro
                           Num laço de fita.


E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh'alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
                            Ó laço de fita!


Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
                            Um laço de fita.


Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
                           Teu laço de fita.


Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso
                          No laço de fita.


Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepita!
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
                        Teu laço de fita.


http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/7a/CastroAlves.jpg
Castro Alves

São Paulo, julho de 1868












(ALVES, Castro. Espumas Flutantes. 5ª ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005. p. 83-84)


quarta-feira, 20 de março de 2013

VIAGEM por Paulo Cesar Pinheiro



Oh, tristeza me desculpe
Estou de malas prontas
Hoje, a poesia, veio ao meu encontro
Já raiou o dia, vamos viajar

Vamos indo de carona
Na garupa leve do vento macio
Que vem caminhando desde muito longe
Lá do fim do mar

Vamos visitar a estrela
Da manhã raiada
Que pensei perdida pela madrugada
Mas vai escondida querendo brincar

Senta nessa nuvem clara
Minha poesia
Anda, se prepara, traz uma cantiga
Vamos espalhando música no ar

Olha, quantas aves brancas
Minha poesia
Dançam nossa valsa pelo céu que um dia
Fez todo bordado de raios de sol

Oh, poesia, me ajude
Vou colher avencas
Lírios, rosas, dálias pelos campos verdes
Que você batiza de jardins do céu

Mas pode ficar tranquila
Minha poesia
Pois nós voltaremos numa estrela guia
Num clarão de lua quando serenar

Ou, talvez, até quem sabe
Nós só voltaremos
No cavalo baio, no alazão da noite
Cujo nome é Raio... Raio de Luar





O compositor Paulo César Pinheiro compôs três romances em menos de três meses; ele acredita que sua obra estava "represada"




quarta-feira, 13 de março de 2013

AS DUAS FLORES por Castro Alves


São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!
"
 
 
(ALVES, Castro. Espumas Flutantes. 5ª ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005. p. 178-179)
 
ESPUMAS FLUTUANTES

 

terça-feira, 12 de março de 2013

sábado, 9 de março de 2013

"Poeminha brasileiro à moda Gullar" por Sara Menck




No Brasil, a cada 2 minutos,
Cinco mulheres são agredidas.


No Brasil
- a cada 2 minutos -
Cinco mulheres são agredidas!


No Brasil 
(a cada 2 minutos)
Cinco mulheres são agredidas...


No Brasil, a cada 2 minutos,  cinco mulheres são agredidas?

No Brasil, a cada 2 minutos, cinco mulheres são agredidas!
No Brasil, a cada 2 minutos, cinco mulheres são agredidas.
A cada dois minutos, no Brasil, cinco mulheres são agredidas...

Cinco mulheres são agredidas a cada dois minutos no Brasil. 


 ...
...
???
!!!




Sara Maria em 08/03 /2013.