sexta-feira, 18 de março de 2016

A ROUPA NOVA DO IMPERADOR por Hans Christian Andersen



Muitos anos atrás, havia um imperador que gostava de roupas bonitas, mais do que qualquer outra coisa no mundo. 


Na verdade, vestir-se ocupava todo o seu tempo... De qualquer forma, a vida era alegre na cidade. Estrangeiros chegavam a toda hora, e um dia, apareceu uma dupla de espertalhões. 


Bem, isso é o que eles eram, mas se diziam tecelões. Diziam também que o pano que teciam, além de uma beleza estonteante, tinha propriedades mágicas: tanto no tear como transformado em roupas, era invisível para quem não estivesse à altura de seu posto ou para os muito estúpidos.


- Excelente! - pensou o imperador. Eis a minha chance de descobrir quais dos meus súditos não servem para os postos que ocupam, e poderei separar os espertos dos tolos. Sim! Esse pano tem que ser tecido e transformado em roupas imediatamente.


 E deu aos impostores uma grande quantia em dinheiro para que pudessem começar o trabalho.


Na mesma hora os tratantes montaram o tear e agiram como se estivessem trabalhando com afinco. Mas, na realidade, não havia nada no tear...(e, assim, continuaram fingindo que trabalhavam, pedindo mais e mais dinheiro).



Passado um tempo, (o imperador mandou um súdito - o primeiro-ministro - ver como andavam os trabalhos. Não foi ele próprio, por receio de não conseguir ver o tecido). 


- Deus nos acuda!, pensou o velho. Não consigo enxergar pano algum - Mas não disse nada... - Será que sou incapaz para ser ministro? Nunca me considerei incompetente... Não, não, não posso dizer que não consigo ver o pano.


 Pouco tempo depois, o imperador decidiu enviar um conselheiro honesto para verificar como estava indo o trabalho... Mas aconteceu com ele a mesma coisa que acontecera com o ministro.


 Então, ele admirou o tecido que não podia ver.


 - Sim, sim, muito lindo! Cores esplêndidas!  Magnífico desenho - e relatou ao imperador que a estampa do tecido era 'magnífica!'



A notícia do maravilhoso tecido logo correu pela cidade. Finalmente, o imperador resolveu ir vê-lo com seus próprios olhos.


- Isso é terrível!, pensou o imperador. Não consigo enxergar nada nos teares! Serei estúpido?... E então, ele falou: 


- Que tecido charmoso... lindo! Tem nossa total aprovação -  E o imperador deu a cada um dos trapaceiros uma condecoração honorária e o título de Oficial do Tear da Corte Imperial.



Na véspera da grande procissão, os farsantes ainda trabalhavam em sua tarefa imaginária: a confecção da roupa... Finalmente anunciaram: 


- A roupa está pronta! 


 E o imperador dirigiu-se aos aposentos. Os trapaceiros continuaram: 


- Se sua Alteza Imperial fizer a gentileza de tirar a roupa que está usando agora, teremos a honra de vesti-lo com o novo traje; pode ver o efeito neste grande espelho.


 O imperador virava-se de um lado e de outro em frente ao espelho.


 - Como está elegante! Como lhe cai bem! - murmuravam os cortesãos. 


- Que tecido rico! As cores são esplêndidas! Vocês já viram manto mais magnífico? - ninguém ousava admitir que não via nada...



E assim o imperador saiu andando majestosamente na procissão, debaixo do esplêndido dossel. 


As pessoas nas ruas ou nas janelas gritavam coisas como: 


- Essa roupa nova é maravilhosa!', 'Como ele está magnífico!', 'Que elegância!'. Pode imaginar? Ninguém ousava admitir que não conseguia ver roupa alguma. Isso significaria que essa pessoa era idiota, ou que não servia para seu posto. Na verdade, nenhum dos deslumbrantes trajes do imperador jamais havia sido tão elogiado.

Então, num momento de silêncio, ouviu-se uma voz de criança, intrigada. 


- Ele não está vestindo nada! - Sshh! - disse o pai da criança.


 - Essas crianças falam cada bobagem!


Mas um sussurro espalhou-se pela multidão. 


- Uma criança ali disse que o imperador está nu.


- O imperador está nu!


 Logo todos murmuravam: 


- Ele está nu!


 Finalmente, o próprio imperador achou que eles poderiam estar certos. Mas aí pensou. 'Se eu parar agora, vou estragar a procissão e isso não pode acontecer'. Então ele continuou caminhando, mais altivamente que antes. 


Quanto aos cortesãos, continuaram carregando a cauda do manto que não existia.

 Ninguém conseguiu segurar o riso. Todos gargalharam e só então o rei compreendeu que fora enganado. Envergonhado e arrependido da sua vaidade, correu a esconder-se no palácio”.


ANDERSEN, H. C. A roupa nova do imperador.

terça-feira, 8 de março de 2016

A ARTE DE SER FELIZ por Cecília Meireles




A arte de ser feliz



"HOUVE um tempo em que a minha janela se abria para um chalé.
Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul.
Nesse ovo costumava pousar um pombo branco.
Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar.
Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e
sentia-me completamente feliz




HOUVE um tempo em que a minha janela dava para um canal.

No canal oscilava um barco.
Um barco carregado de flores.
Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava?
Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência?
E que mãos as tinham criado?
E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las?
Eu não era mais criança,
porém a minha alma ficava completamente feliz
  

HOUVE um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. 

À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças.
E contava histórias.
 Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil.

Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias
e me sentia completamente feliz.
  



HOUVE um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz.

Perto da janela havia um pequeno jardim seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto. 

Mas todas as manhãs, vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. 
Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. 
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros
e meu coração ficava completamente feliz.







MAS, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela,
uns dizem que essas coisas não existem,
outros, que só existem diante das minhas janelas
e outros, finalmente,
que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim".



 
  



Cecília Meireles