quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

SONETO DO AMIGO por Vinicius de Moraes




"Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica..."



Vinicius de Moraes



Los Angeles, 1946.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

MOTIVO por Cecília Meireles

"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.



Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada."
Cecília Meireles


REFERÊNCIA:

MEIRELES, Cecília. Viagem. In: Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1991. p. 228.




RETRATO por Cecílica Meireles


"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

POEMA DE SETE FACES por Carlos Drummond de Andrade




"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo."


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 24 de setembro de 2013

EXAUSTO por Adélia Prado

"Eu quero uma licença de dormir, 
perdão pra descansar horas a fio, 
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.

Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies, 
a graça de um estado.

Semente.

Muito mais que raízes. "


Adélia Prado


(PRADO. Adélia. Exausto In: Bagagem. 32ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 26)



sábado, 21 de setembro de 2013

Para comemorar o dia da árvore : CAVEMOS A TERRA, PLANTEMOS A ÁRVORE por Arnaldo Barreto



Árvore Amsterdã - Holanda 2012
   “ Cavemos a terra, plantemos a árvore,
    Que amiga e bondosa ela aqui nos será!
    Um dia, ao voltarmos pedindo-lhe abrigo,
    ou flores, ou frutos, ou sombras dará!

    O céu generoso nos regue esta planta;
    o Sol de dezembro lhe dê seu calor;
    a terra, que é boa, lhe firme as raízes
    e tenham as folhas frescuras e verdor!

    Plantemos a árvore, que a árvore amiga
    seus ramos frondosos aqui abrirá,
    Um dia, ao voltarmos, em busca de flores,
    com as flores, bons frutos e sombra dará

    O céu generoso nos regue esta planta;
    o Sol de dezembro lhe dê seu calor;
    a terra, que é boa, lhe firme as raízes
    e tenham as folhas frescuras e verdor!”
UEL/2013

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

NEL MEZZO DEL CAMIN... por Olavo Bilac






"Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada

E triste, e triste e fatigado eu vinha.

Tinhas a alma de sonhos povoada,

E a alma de sonhos povoada eu tinha...



E paramos de súbito na estrada

Da vida: longos anos, presa à minha

A tua mão, a vista deslumbrada

Tive da luz que teu olhar continha.



Hoje, segues de novo... Na partida

Nem o pranto os teus olhos umedece,

Nem te comove a dor da despedida.



E eu, solitário, volto a face, e tremo,

Vendo o teu vulto que desaparece

Na extrema curva do caminho extremo."


Olavo Bilac

terça-feira, 3 de setembro de 2013

"UVI STRELLA" por Juó Bananère



Che scuitá strella, nê meia strella!
Vucê stá maluco e io ti diró intanto
Chi p'ra iscuitalas moltas veiz livanto,
I vô dá una spiada na gianella.

I passo as notte acunversando c'o ela.
Inguante che as outra lá d'un canto
Stó mi spiano. I o sol come un briglianto
Nasce. Oglio p'ru ceu: — Cadê strella!?

Direis intó: Ó migno inlustre amigo!
O chi é chi as strellas ti dizia
Quando illas viero acunversá cuntigo?

E io ti diró: - Studi p'ra intendela,
Pois só chi giá studô Astrolomia,
É capaiz di intendê istras strella.

Juó Bananére (pseudônimo de Alexandre Machado) – momento modernista, debochando dos parnasianos.