sábado, 25 de junho de 2011

BELARMINO por Sara Menck


Para B.J.M


Solidão: momento em que o estado de espírito,
ou o próprio espírito mergulha no deserto.
Tudo se faz árido,
seco,  triste, vago. 


Um olhar, ou a
 
impressão de um sorriso
é o oásis que se desfaz no mesmo instante do devaneio.


Não vem o abraço
Não há o encontro!


Só a ele pertence a angústia,
A espera e o eterno tardio da chegada
E o  querer demais  e o jamais encontrar.


E o vazio se faz presente
 no menor e singelo desejo de acertar o passo
 no bom,  no melhor,
ou apenas no lugar certo da vida.


A espera é longa
e  nunca se alcança o chegar...


Tornam-se quentes demais o sentir e o desistir
...

...Ao fim,
 resta apenas a  vontade imensa de agarrar o fio da esperança...



Ah! só  entende bem essa esterilidade e desabitação do deserto
quem já por ele passou !!

Quem nele já viveu!!
Sara Maria em 25/06/2011.




domingo, 19 de junho de 2011

"Traduzir-se" por Ferreira Gullar




Somos singulares e plurais ao mesmo tempo!
"Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.


Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
"

(Ferreira Gullar)

domingo, 12 de junho de 2011

"Uma singela história do verdadeiro Amor!" por Sara Menck


Encontramo-nos na extrema curva do caminho extremo.
Vínhamos fatigados e tristes.
E triste e fatigada eu vinha.
 E caminhamos de súbito naquela estrada
 por um tempo que durou duas vezes sete.


Tínhamos na alma um sonho escondido 
e uma luz lá do alto nos assistiu.
E foi essa mesma luz que,
 lá do alto, um dia, ordenou:

“Saulo, mudarei o teu caminho e o teu caminhar.
Deves seguir um caminho
 que agora te ponho à frente.
Tomes essa estreita estrada
 sem curvas e sem fim.
Não olhes pra trás,
 nem para os lados.
Vai em frente.
Ainda que encontrares pedras,
 não deves desistir.
 Segue em frente.

Se acertares o teu caminhar
ao fim, dar-te-ei  um prêmio”.

E foi por isso que um dia
ele chegou tão diferente,
tomou-me pelas mãos e à vista
 fomos deslumbrados  pela  luz
que nosso olhar continha.
E agora, não mais com Saulo e,
sim, com Paulo,
caminho lado a lado
em busca do Amor maior.


E a estrada é longa
 e o caminho é estreito
e a Luz é intensa
e as pedras são muitas
e o amor  sem fim.

Por isso,
 não mais do que por isso:
Juntos amanhecemos
Entardecemos
Envelhecemos,
Adoecemos.

Mas seguimos
A mesma estrada
A mesma luz
O mesmo Amor.

Sara Maria 12/06/2011

sábado, 11 de junho de 2011

VINICIUS DE MORAES; FLORBELA ESPANCA e HELENA KOLODY: amor, fanatismo e sonhos!



"Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude
."
(Vinícius de Moraes)



"Fanatismo

 Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…

(Florbela Espanca)

"Nós

Fomos duas árvores castas.
Não misturamos as raízes.
Apenas enlaçamos
os ramos
e sonhamos juntos."

(Helena Kolody)


quinta-feira, 9 de junho de 2011

"pera tão longo amor tão curta a vida!" por Camões



Algumas das nossas conquistas, sejam elas amorosas, acadêmicas, profissionais, pessoais enfim, podem levar sete tempos para conseguirmos. Já, outras podem durar ainda mais sete tempos... O importante é sermos perseverantes e aceitarmos o que nos é dado até alcançar o bem desejado.

Camões - o nosso clássico poeta português foi buscar, na Bíblia, inspiração para compor um soneto, cujo tema mostra a perseverança de Jacó pelo amor de Raquel.




"Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
que a ela só por prêmio pretendia.


Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.


Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida,


começa de servir outros sete anos,
dizendo: mais servira, se não fora
pera tão longo amor tão curta a vida!"

Luis Vaz de Camões



 "A fonte antiga deste poema está na Bíblia  (Gênesis, XXIX, 25) Na história biblica, Labão engana Jacó, desrespeitando o acordo feito e dando-lhe Lia, a filha mais velha, que, segundo o hábito hebraico, deveria casar-se primeiro. As complicações futuras entre o sogro e o genro, devidas a motivos materiais, não aparecem no poema de Camões, que se interessou apenas pelo lado "romântico" da história"

(RODRIGUES, A.M. Sonetos de Camões: roteiro de leitura. São Paulo: Ática, 1993) 

terça-feira, 7 de junho de 2011

SONETO DE FIDELIDADE por Vinicius de Moraes

Falar de amor é preciso...  Viver um grande amor é melhor!!



Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.


 

.
Fonte:
MORAES, Vinicius de. Soneto de Fidelidade. In: Antologia Poética.  Editora do Autor: Rio de Janeiro, 1960, p. 96.





sábado, 4 de junho de 2011

"Textos e diálogos" por Sara Menck


- Professora?

- Oi, Renan!!!

- O que a senhora vai postar no seu blogger no dia dos namorados?

- Não sei... por quê?

- Ah, estou esperando para ler...

- ahnn!! Que bom... Vou pensar nisso...

- Vai pensar?! A senhora ainda não escreveu o seu texto para o dia dos namorados?

-  Escrever?! Vejo que você é um aluno exigente, heim?! Você quer que EU escreva um texto para o dia dos namorados?

- Ué, e por que não???

- Não sou poeta, Renan, e ainda estou aprendendo a amar...

- Professora, me desculpe, mas agora a senhora está plagiando uma música daquela cantora que já morreu a... Cássia Eller...

- Não, Renan, nem uma coisa nem outra... A Cássia Eller gravou uma música intitulada “Malandragem”.  Uma composição de Cazuza e Frejat... Há um trecho dessa música assim:

"Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança
E não conheço a verdade
Eu sou poeta
E não aprendi a amar
Eu sou poeta
E não aprendi a amar..."

E na realidade, essa música faz uma referência a um texto de um poeta ultrarromântico chamado Alvarez de Azevedo que escreveu um poema intitulado “ Lembrança de morrer” . Nesse poema, encontramos uma estrofe assim:

"Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela
— Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—"

- Ah, professora, entendi...  então, foi o Cazuza que plagiou esse tal de Alvarez de Azevedo??

- Não!!!!! Ninguém plagiou ninguém... pelo menos, não  nesse caso!!! Isso se chama INTERTEXTUALIDADE.  Isto é, quando em um texto fazemos citação de outro texto.  Na verdade, é um diálogo entre textos...  A citação pode ser na íntegra, quando copiamos parte de um texto, mas dizemos quem é o autor; ou quando fazemos, no nosso texto, uma referência proposital de outro texto, ou autor... Isso enriquece o texto... mostra conhecimento textual e leituras... São verdadeiros diálogos textuais...

- Diálogos???   Um texto “conversa”  com outro texto?

- É isso!! A gente percebe o texto citado, mas com novo sentido... Como nos exemplos acima... Por isso, é importante sermos leitores para percebermos os explícitos e os implícitos textuais...

- Ah, tá bom... mas, e plágio?

- Bom, plágio é quando se copia algo de alguém e não faz as devidas citações da fonte e autoria  e ainda usa como se fosse seu...

- Deixa ver se eu entendi... é “roubar” a ideia de alguém!!!

- Exatamente isso, Renan!! Garoto esperto você, heim!!!

- Obrigado, profe!!!  Aqui a gente sempre “ensina” um pouco...

- ????

- .!!!!!

- É isso... Por isso, é importante lermos... Precisamos compreender melhor os diálogos... e até mesmo os diálogos entre os textos... E o próprio diálogo textual interno como neste texto... Certo, my boy?

- Hum hum!!

- Quanto ao dia dos namorados, pretendo sim trazer alguns textos... É só você me seguir...

- ... e o seu texto??

-  ... o meu texto já está aqui...

-  mas... para o dia dos namorados...

- Quem sabe... sempre vale a pena falar de amor!!!   Agora vamos ler Luis de Camôes e Renato Russo . Aqui temos diálogos entre os textos de Camões (poeta Clássico)  e Russo (contemporâneo), mas é importante lembrar que em Renato Russo encontramos um intertexto bíblico também.  


Então, Renan, antes das leituras citadas acima, leia e pense nisto: 



"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse toda a ciência, e ainda que transportasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria [...]."  (I Cor.: 13)



Amor é fogo que arde sem se ver


"Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É dor que desatina sem doer;
É um contentamento descontente;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"


Luis Vaz de Camões



Monte Castelo   (Renato Russo)
Composição : Renato Russo

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria

É só o amor, é só o amor.


Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.

"O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.


Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.


É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.


É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.


Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem.
Agora vejo em parte. Mas então veremos face a face.


É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.


Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria."